A taxa de juros nos Estados Unidos

Por em 6 de junho de 2019

política monetária e a inflação nos Estados Unidos andam bem doidas. Na verdade, o processo de mudança estrutural vem de décadas, com a queda sistemática da taxa de juros ao longo do tempo e com a relação cada vez mais tênue entre inflação e nível de ociosidade na economia. Neste gráfico isso fica claro: o desemprego sobe muito ali por 2018, mas a inflação cai pouco e já retorna a 2% em 2011; depois o desemprego entra em queda ininterrupta e a inflação, que deveria subir, não mexe nem o dedo mindinho. Por quê?

Não sabemos direito. A explicação mais comum para países mais avançados é que a política monetária ficou tão mais eficiente nas últimas décadas que a ancoragem que ela exerce sobre a inflação é forte a ponto de prevenir quase qualquer oscilação inflacionária associada ao ciclo econômico.

O juro que cai lá é sempre bom aqui?

A taxa de juros de longo prazo nos Estados Unidos, após subir ligeiramente ano passado, alcançou novas baixas históricas. Está agora, hoje mesmo, ali pelos 2,1%. Veja, estamos falando na taxa para financiamentos de 10 anos! A média dessa variável para o longo período que vai de 1962 até maio de 2019 é 6,1%, ou seja, três vezes maior. Em bom português: o juro nos Estados Unidos está muitíssimo baixo.

Juros internacionais mais baixos estão associados a juros internos menores, mas essa relação positiva (que também vale para altas) é, hoje em dia, bem fraquinha. O juro interno tem mais a ver com inflação interna, perspectivas de crescimento, risco do país (haverá ou não uma crise fiscal?) etc.

De todo modo, o mais importante nessa discussão é saber a origem da alta/baixa do juro nos Estados Unidos. O xis da questão está em identificar a origem do choque.

Por exemplo, se o juro de longo prazo está em alta nos Estados Unidos porque a economia está indo muito bem e os agentes econômicos acreditam que isso seguirá sendo o caso no futuro – e portanto a demanda por crédito e a inflação subirão –, os efeitos adversos de juros internacionais mais elevados serão compensados pelos benefícios de uma economia mais vigorosa, que beneficia o mundo todo por meio de mais comércio e menor aversão ao risco. Em resumo, o juro mais alto por conta de uma economia mais forte não é um problema.

Comparemos esse caso com uma situação em que a inflação sai de controle porque o preço do petróleo subiu muito num determinado ano. Nesse nada benigno exemplo, a inflação mais alta aciona expectativas de que a política monetária precisará ficar apertada por um tempo mais prolongado. O juro, como no caso anterior, subiu, mas não por conta de uma economia americana pujante. Nesse tipo de situação, a coisa azeda para nós aqui nos trópicos: temos ao mesmo tempo menor liquidez internacional e menor crescimento da economia americana.

Então, qual é o caso atual?

Em 2018 a economia dos Estados Unidos cresceu que foi uma beleza, em boa medida graças ao estímulo fiscal advindo do corte de impostos para corporações. Isso acendeu uma expectativa de crescimento forte agora e no futuro, levando portanto a uma alta – benigna – da taxa de juros. Mas o estímulo vai perdendo fôlego e a incerteza quanto a uma possível guerra comercial com a China e outras travessuras trumpescas está mudando o humor dos investidores. Muita gente já acredita numa economia americana crescendo pouquinho daqui a um ano. Isso, por sua vez, aumenta as apostas de que o juro lá na frente seguirá baixo, o que afeta a taxa para 10 anos.

Concluindo, por estranho que possa parecer, a queda na taxa de juros nos Estados Unidos que estamos presenciando nos últimos meses não é boa notícia para a economia brasileira.

 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE S.PAULO

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