Apertar o acelerador dos gastos?

Por em 10 de maio de 2018

Quando o motorista pisa fundo no pedal, duas coisas podem acontecer. No cenário benigno, ele chega ao destino mais rapidamente; no outro, enfia o carro no poste, destrói carro e poste, possivelmente fere alguém, vai para o hospital se recuperar das fraturas enquanto o carro fica parado na oficina para conserto. Exemplo tão prosaico – e real! – deveria servir de aviso aos economistas que pesam o pé no acelerador.

Em 2012, a economia brasileira começava um ciclo de desaceleração, em parte por motivos conjunturais, em parte pelo acúmulo de ineficiências que vieram se acumulando desde 2010 – mudança no marco regulatório do petróleo, crescimento das intervenções nos mercados de crédito, renegociação semiforçada na área da energia etc. Aí o governo, que quase sempre tem pressa, meteu o pé. Juros para baixo, crédito para cima, impostos para baixo, gastos para cima. O pacote completo do apressado. O que ocorreu? A economia deu um suspiro em 2013 e, tal qual um enfermo de romance russo, cujas faces pálidas tornam-se rosadas na véspera da morte, sucumbiu logo em seguida à rara enfermidade de crescimento baixo com inflação alta.

Diagnóstico claro como água: o Brasil sucumbiu aos excessos engendrados pelo governo. Bateu no poste. Essa, no entanto, não é a percepção de alguns economistas brasileiros. O professor Marcio Pochmann, da Unicamp, recentemente veio a público dizer que a saída para nossa desastrosa situação fiscal é pelo crescimento. Perfeitamente, professor. E como engatar uma trajetória de crescimento sustentável? Ora, via estímulo fiscal, claro! Mas, professor, não foi isso aí que nos meteu no hospital? Ah, mas isso aconteceu porque ele – o estímulo –  não foi suficiente!

Em resumo, o que o professor nos sugere é curar ressaca bebendo-se o dobro do que bebemos na véspera. Claro, você não precisa ser médico formado para concluir que por esse caminho chega-se é a um perigoso coma alcoólico.

Estímulos fiscais, caros leitores, podem mesmo ser úteis em diversas situações. Úteis no sentido de ajudar a economia ciclicamente (ou seja, temporariamente), não no de promover taxas de crescimento econômico perenemente mais altas. Por exemplo: os Estados Unidos evitaram uma catástrofe maior em 2008 em parte por terem reagido à recessão por meio de uma política fiscal mais frouxa. Mas há condições sob as quais esse estímulo temporário não ocorre. Quando o que trava o investimento privado é o medo das consequências de uma dívida pública crescente, maiores gastos não ajudam – principalmente se a taxa de risco é alta e responde muito a aumentos no volume da dívida (como no caso brasileiro, e ao contrário do caso norte-americano). Novamente, trata-se da história de meter cachaça abaixo da goela do bêbado. Bem diferente de dar umas doses de vinho do Porto para um sujeito de boa saúde caído na cama com uma gripe forte.

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Para ser mais preciso, o que Pochmann alega é ainda mais inacreditável. Seu argumento é de que com o governo gastando mais, não só a economia crescerá mais celeremente, mas crescerá tanto que a arrecadação de impostos fará o déficit diminuir! Você gasta mais e no final acaba economizando!

Se parece um truque de prestidigitação, é porque de fato é disso que se trata. Mas como escreve no bilhete de despedida o senhor curvado e simpático da animação de Michel Ocelot, la magie n’existe pas. O Brasil precisa de realismo, não de mais cachaça.

Publicado originalmente na Coluna do Por Quê? na Folha

 

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