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Como ler os dados sobre criação de emprego?

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01/02/2018-10:44 - Atualizado 01/02/2018 10:47

grafico semana 23.11

Apresentamos aqui o gráfico da criação líquida —admissões menos demissões— de empregos com carteira assinada no Brasil nos últimos 13 anos. A informação é produzida pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. E aí, gostou do gráfico? O quê? Não gostou?

O gráfico está péssimo, mas não por falta de cuidado artístico, cremos, e sim porque a partir dele você não consegue inferir nada de útil. Vamos bem ou vamos mal? Qual a tendência que ele indica? A crise foi de fato severa? Esse zigue-zague maluco impede uma visão mais clara da situação. Ah, já íamos esquecendo: o dado de dezembro, antecipado pela imprensa e depois confirmado pelo Ministério da Fazenda, não está incluído. Mas é só você aí na sua telinha meter um -300 bem vermelhão depois do último ponto.

O problema aqui é o seguinte: o dado tem sazonalidade, ou seja, um padrão que se repete em determinado período do ano, mas é passageiro, devido a alguma especificidade que importa pouco na análise sobre a tendência. Em dezembro as contratações do setor formal caem muito (e no informal as contratações temporárias sobem). Por isso esse monte de bico para baixo no fim de cada ano. Note que apesar da imprensa ter assustado muita gente com o desaparecimento de 300 mil vagas, esse resultado parece bem normal quando comparado aos anteriores!

O dado do saldo, além do mais, pode ser quebrado em demissões e admissões. O leitor deve imaginar que não haveria motivos lógicos para demissões em massa em dezembro, certo? Fim de ano ninguém contrata, é Natal, as decisões são adiadas, etc. Mas por que demitir adoidado em dezembro? De fato, veja só o gráfico de demissões: não tem sazonalidade!

grafico semana 29.01.01

Mesmo esse gráfico tem seus probleminhas. O principal é que a formalização de um modo geral foi até pouco tempo crescente na economia, então tanto demissões como admissões têm viés de alta nos dados: mais gente no setor formal significa mais de ambos.

Voltando ao saldo. Para fugir daquele gráfico horroroso, o ideal é pegar uma medida que incorpore doze meses corridos – uma média acumulada. Porque aí a gente some com as esquisitices ocorridas em um mês em particular, que ficam submersas na média. Veja: quando usamos doze meses, sempre vai ter um dezembro lá dentro, e por isso os picos e vales desaparecem.

grafico semana 29.01
Nesse gráfico ficam claros a crise de 2009, a forte recuperação de 2010, a tendência de piora depois de 2011 e o buraco profundo de 2015 e 2016, assim como a tendência de melhora que se inicia em 2017.

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Publicado originalmente na Coluna do Por Quê? na Folha.com

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