Mudança no crediário no cartão é importante

Por em 4 de abril de 2019

Há alguns dias os bancos anunciaram que vão oferecer um novo produto: o crediário no cartão de crédito. A partir de agora, quando formos às compras, vamos poder pagar a prazo e tomar dinheiro emprestado do banco emissor do nosso cartão.

“E daí? Eu sempre compro a prazo e divido no cartão! O que que mudou?”. Se você ficou com essa dúvida, saiba que a mudança é importante. Vamos explicar.

Até agora, as compras a prazo funcionam assim: uma TV de 49 polegadas custa R$1.800,00 à vista ou 12 vezes de R$166,58 a prazo. A taxa de juros embutida aí é 1,65% ao mês. Se você decidir comprar a prazo, dividindo em 12 vezes de R$166,58 no cartão, o que que vai acontecer na prática? O dono da loja é que vai estar emprestando a você o dinheiro. Ele só vai receber as parcelas de R$166,58 da empresa do cartão de crédito nas datas futuras dos pagamentos. Ou seja, é como se ele estivesse emprestando R$1.800,00 para você comprar a TV à vista, e você pagasse a ele o empréstimo em 12 vezes de R$166,58. Mas há um detalhe importante. Se você der calote no cartão de crédito, o dono da loja recebe o valor da parcela da empresa de cartão do mesmo jeito. Seu calote não muda nada para ele.

Em economês: todo o risco de crédito fica com a empresa do cartão. Esse, na verdade, é o único papel da empresa de cartão nessa história. Então, em resumo, o papel de cada um no modelo atual de compras a prazo é o seguinte: você compra a TV e pega um empréstimo do dono da loja; o dono da loja vende a TV para você e lhe dá um empréstimo; e a empresa de cartão fica com o risco de crédito.

O mundo das compras a prazo vem funcionando assim no Brasil há um bom tempo. É um pouco estranho, convenhamos. Por que a loja tem que emprestar o dinheiro? Ela tem é que vender TV, ora bolas!

Bom, a partir de agora tudo vai ficar mais “normal”. Os bancos resolveram entrar nesse mercado de empréstimo para compras a prazo.

Regra pode deixar o mercado de crédito para compras a prazo mais concentrado na mão dos bancos

Daqui a alguns dias, quando você for à loja, você vai ter uma nova opção disponível de financiamento: vai poder comprar a prazo, com o banco emissor do seu cartão de crédito lhe emprestando o dinheiro. Nesse caso, você compra a TV a prazo no cartão, a loja recebe do banco os R$1.800,00 à vista, e à medida que você for pagando as faturas futuras, a empresa de cartão vai passando para o banco o dinheiro. Ou seja, quem faz o empréstimo nesse caso é o banco e não mais o dono da loja. E o risco de crédito fica também com o banco e não mais com a empresa de cartão.

Isso, em princípio, deve ser bom. Afinal de contas, em tese o banco deve conseguir emprestar dinheiro a um juro menor do que o juro da loja. Ou não? Provavelmente sim. Poxa, emprestar dinheiro é o que os bancos sabem fazer de melhor! Assim, em vez de pagar a TV em 12 vezes de R$166,58, de repente o banco vai oferecer a você 12 parcelas de R$150,00. E também é possível que ele consiga oferecer prazos mais longos. Bom, né?

Acontece que, para algumas pessoas, pode ter um caroço nesse angu. O banco tem muito mais informação sobre os clientes do que o dono da loja. O dono da loja não sabe medir muito bem a probabilidade de calote de cada um. Assim, ele acaba cobrando a mesma taxa de juros no empréstimo para todo mundo (ainda mais porque o risco de crédito é da empresa do cartão e não dele). Se eu for comprar a TV a prazo, ele vai dizer que ela custa 12 parcelas de R$166,58. Se alguém muito rico for comprar a TV a prazo, ele vai dizer a mesma coisa.

Já com o banco vai ser outra história. O seu banco sabe muito sobre você. Logicamente isso vai se refletir na taxa de juros do financiamento. Os bancos já deixaram isso claro: as taxas de juros dos empréstimos vão variar de acordo com o perfil do cliente. O que que vai acontecer então? Algumas pessoas, aquelas com perfil de crédito pior, podem acabar tendo que pagar prestações maiores do que as atuais.

Mas esse cara que se deu mal não vai continuar tendo a opção de pegar o empréstimo da loja? Provavelmente não. O dono da loja e a empresa de cartão não são bobinhos. Eles vão saber que uma pessoa que quer pegar emprestado com eles teve uma oferta ruim de financiamento do banco e não deve ter um perfil de crédito muito bom. Ou seja, a dupla loja (dando o dinheiro) e empresa de cartão (ficando com o risco de crédito) deve sair do ramo dos empréstimos.

Isso pode deixar o mercado de crédito para compras a prazo mais concentrado, só na mão dos bancos. Além disso, a grande maioria das pessoas só tem conta em um banco e, assim, não vai ter muito como barganhar os juros do financiamento daquela TV de 49 polegadas.

 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE S.PAULO

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