O Brasil está livre das saúvas?

Por em 21 de janeiro de 2019 , atualizado em 22 de janeiro de 2019

Ou destruímos as saúvas ou as saúvas vão destruir o Brasil.

E saúvas não faltam em nosso país. Há as pequenas, de seis patas, que vivem em colônias, invadem as plantações, cortam e levam para o formigueiro as folhas das hortaliças. Essas saúvas são formigas do gênero Atta.

Mas pior que elas são as saúvas bípedes, que tomam aquilo que é público como se fosse privado – e delas. São as saúvas patrimonialistas.

Durante os longos anos de governo petista, havia duas espécies de saúvas patrimonialistas. A mais comum formava um grupo numeroso que se satisfazia com um salário polpudo em bancos estatais ou autarquias. Muitas carregavam com orgulho uma estrela na lapela, mas outras eram identificadas pelo anel de doutor ou pelas medalhas no peito. Faziam um estrago considerável, mas limitado aos seus horizontes.

O maior dano era causado por outra classe de saúvas patrimonialistas, que não se satisfaziam com uma sinecura de 30 mil reais por mês. Eram saúvas criativas e ambiciosas. Algumas se passavam por empresários bem conectados, com acesso a linhas de crédito no BNDES ou no Banco do Brasil; outras eram empreiteiros especializados em negócios com o poder público, companheiros de poderosos no churrasco e na cerveja, entre várias outras variações do tema. Por terem horizontes amplos, deixavam um grande estrago por onde passavam. A Petrobras que o diga…

Felizmente, a tecnologia de combate às saúvas patrimonialistas evoluiu em tempos recentes. As saúvas graúdas podem ser erradicadas por uma combinação de leis eficazes contra a lavagem de dinheiro, com uma regulação bancária que exija que os bancos conheçam seus clientes e uma boa dose de inseticida ministrada por juízes bons de serviço. Não podemos prever o futuro do país, mas arrisco o palpite de que não veremos casos explosivos de sucesso apoiado por bancos estatais, como os protagonizados pelas saúvas do grupo X e dos frigoríficos.

O problema que restou são as saúvas medíocres. Por sua própria mediocridade, sentimos a tentação de ignorá-las. Afinal, no grande esquema do universo, o que é a promoção de um filho de político que triplica o salário em um banco estatal? O mundo não vai acabar porque o filho de um presidente de banco estatal usa de sua história familiar para obter uma licença remunerada para estudar com conforto. E daí que o amigo do presidente conseguiu um emprego em uma empresa estatal?

Mas assim como saúvas pequeninas podem destruir uma lavoura imensa, um exército de saúvas medíocres pode fazer um estrago tremendo, com suas antenas sintonizadas no burburinho de Brasília, mandíbulas possantes a mastigar slogans e nádegas de tanajura de tanto fazer nada.

Para que nossa lavoura sobreviva, precisamos descobrir o repelente para as saúvas menores também. Enquanto tal poção mágica não for inventada, podemos começar pelas privatizações, para reduzir tanto o tamanho do Estado quanto as oportunidades para as saúvas de qualquer porte.

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE S.PAULO

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