O que aconteceu – e o que aprender – com a Argentina?

Por em 14 de maio de 2018

A experiência recente da Argentina é um bom lembrete do custo trazido por erros na economia.

Em tempos recentes, tanto a Argentina quanto o Brasil trocaram de governos que deixaram um legado de políticas econômicas populistas, com um longo histórico de destruição da prosperidade. Mas, por pior que fossem os nossos populistas, não eram tão ruins quanto as versões argentinas.

Enquanto o governo Dilma nos legou inflação de uma dúzia, o de Cristina Kirchner deixou inflação de duas, três… ninguém sabe quantas dúzias. Sim, porque eles também tiveram o “cuidado” de destruir o próprio sistema de coleta de estatísticas econômicas.

Quando o presidente argentino Mauricio Macri foi eleito, a sua missão era extremamente complicada. A primeira tarefa foi recriar o mercado cambial em que firmas e bancos podem comprar e vender dólares, depois de vários anos de escassez de divisas causada por populismo econômico. Mas, além disso, era necessário diminuir o déficit fiscal, recompor os preços de vários produtos e serviços que estavam congelados por vários anos, convencer firmas a expandir a capacidade de produção, puxar a inflação das alturas para níveis civilizados… Um trabalho hercúleo.

Assim como no Brasil, onde muitos dos melhores economistas se juntaram ao governo pós-Dilma, formando um “time dos sonhos” no Banco Central, Ministério da Fazenda e outras instituições, muitos dos melhores nomes argentinos foram recrutados. Mas o projeto deles, até agora, tem fracassado.

Qual o erro?

Um erro de estratégia parece ter fadado ao fracasso as boas intenções de tantos: a aposta pelo governo Macri de que o ajuste fiscal, espinha dorsal do programa de estabilidade econômica, poderia ser feito de forma gradual.

Pela lógica do ajuste gradual, bastaria dar sinais de que algum ajuste seria feito (eventualmente) e um processo virtuoso teria início: investidores internacionais se sentiriam confortáveis em investir na Argentina; o mercado de câmbio se normalizaria; as expectativas de inflação convergiriam para a meta de inflação que, por sua vez, voltaria a patamares mais baixos em poucos anos. Tudo isso ocorreria sem um processo recessivo ou aumentos agressivos de juros pelo banco central. A Argentina conseguiria, assim, largar mão do legado do kirchnerismo e o governo não precisaria gastar de imediato seu capital político.

A estratégia gradualista poderia ter dado certo. Com alguma sorte, por exemplo, pode-se até receber um bilhete premiado pelo correio! Mas a sorte argentina não foi longe o suficiente…

A economia não recebeu a enxurrada de investimento estrangeiro, o crescimento minguou, e a inflação teimou em não se ajoelhar aos pés dos grandes macroeconomistas no governo. Passaram-se pouco mais de dois anos de governo Macri, e pouco se fez ainda em termos de ajuste fiscal.

Mas e o câmbio?

Com a ausência de progresso, logo os detentores de pesos passaram a se questionar se não era melhor comprar dólares. Quando muita gente quer se livrar dos pesos (o peso é a moeda argentina, tem a característica de se tornar mais pesada quanto mais alta a inflação), o preço do dólar passa a subir. Aqueles que não estavam vendendo pesos antes se juntam à onda, ao sentir a força da gravidade que puxa o valor da moeda para baixo. E o dólar agora sobe mais rápido ainda.

Foi para tentar controlar o processo de perda de valor de sua moeda que o governo argentino foi atrás da ajuda do FMI, o Fundo Monetário Internacional. A ideia é que esse apoio garantiria melhores políticas econômicas e mais dólares para equilibrar o mercado cambial. Mas qual o custo de ter o apoio do FMI? O capital político do governo Macri. Governos que pedem ajuda externa para resolver problemas macroeconômicos tem o hábito de virar oposição quando testados nas urnas…

Qual a lição ao Brasil?

O problema do déficit fiscal não admite solução meia-boca. Precisa ser encarado com coragem – e prontamente. Se deixarmos a sangria correr desatada, podemos até dar sorte por um tempo… Mas não para sempre.

A alternativa ao ajuste gradual é encarar o problema fiscal durante o período de lua de mel do novo governo, cortando gastos e aumentando impostos, e ajustando os parâmetros da Previdência para que se torne sustentável.

É verdade, essa receita faz inimigos no curto prazo. Mas também cimenta alicerces sólidos para uma recuperação econômica sustentável. Um novo governo que ainda tenha capital político para queimar seria bem aconselhado a seguir este caminho para, assim, a colher os frutos eleitorais da recuperação econômica quatro anos depois.

Afinal, quem não quer ser reeleito?

 

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