O que mudou na economia?

Por em 17 de maio de 2018 , atualizado em 18 de maio de 2018

Apesar dos enormes avanços das últimas décadas, a economia ainda tem muitas questões em aberto. Em diversas áreas persistem os tais dos “puzzles” ou paradoxos, em que os dados insistem em contradizer resultados teóricos canônicos, desde o comportamento de consumidores e empresas até a formação de preços no mercado financeiro.

A profissão de economista é frequentemente alvo de críticas. Entre elas estão a pouca atenção dada a problemas no sistema financeiro que levaram à crise de 2009, a dificuldade de replicar e generalizar resultados empíricos, e a excessiva participação masculina em seus quadros.

Críticas são cruciais. Elas nos forçam a repensar estratégias para entender o mundo a nosso redor. Ajudam, por exemplo, no melhor desenho de políticas públicas, prevenindo o aparecimento de resultados inesperados indesejados.

Entretanto, boa parte das críticas que acabam chegando ao público geral não faz sentido, pois refletem o estado da profissão há uns 40 anos. Nas últimas décadas, a economia mudou bastante, e diversos desses pontos foram incorporados ao arsenal do economista.

Um exemplo desse tipo de crítica é o artigo do professor John Rapley, da Universidade de Cambridge, recentemente traduzido para o português pelo jornal Nexo. Rapley ataca dois aspectos da economia: a noção de equilíbrio e a falta de uma “pegada” empírica por parte da profissão.

1.     A NOÇÃO DE EQUILÍBRIO

A primeira coisa que vem à cabeça de quem estudou um pouquinho de economia é o modelo de oferta e demanda. Pense em um mercado qualquer – o de camisas, por exemplo. A oferta descreve o comportamento dos produtores, apontando que, quanto maior o preço da camisa, mais eles desejarão vender. Já a demanda descreve como consumidores se comportam – quanto maior o preço da camisa, menos unidades eles querem comprar. A teoria tenta entender como o mercado funciona, modelando a interação de vendedores e compradores.

Chamamos de equilíbrio de mercado a situação em que as ações de consumidores e produtores são consistentes entre si. Especificamente, ao preço de equilíbrio, a quantidade de camisas que os consumidores desejam comprar é exatamente igual à quantidade de camisas que os produtores querem vender.

Eventuais desvios disso – os excessos de oferta ou de demanda – seriam rapidamente corrigidos pelo sistema de preços. Por exemplo, se há mais camisas à venda do que os consumidores querem comprar, os preços entram em ação – a camisa fica mais barata, incentivando consumidores a demandarem mais e produtores a ofertarem menos. Aquela diferença entre oferta e demanda desaparece.

Analogamente, caso os consumidores queiram mais camisas do que os produtores estão dispostos a vender, os preços subirão. Com isso desestimula-se a demanda e estimula-se a oferta, eliminando a diferença.

Como bem notado por Rapley, há aqui uma analogia com a física. Por exemplo, se você coloca água e óleo em um recipiente e o chacoalha, eles se misturam, mas ao parar o sistema volta rapidamente para a situação inicial, com os líquidos novamente separados. No caso do modelo de oferta e demanda, depois de uma “chacoalhada”, os preços entram em ação para empurrar a economia de volta para o equilíbrio.

O equilíbrio de mercado tem outra propriedade importante: ele é eficiente, ou seja, gera o máximo de bem-estar possível. Intervenções do governo não teriam muito como melhorar a economia nessa dimensão (em geral, elas apenas geram perda de eficiência).

Indo além

Nas últimas décadas, entretanto, a noção de equilíbrio em economia mudou completamente, influenciada por um campo da matemática conhecido como Teoria dos Jogos. Um dos principais conceitos nesse campo é o chamado Equilíbrio de Nash – em homenagem ao matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia de 1994, cuja vida é retratada no filme Uma mente brilhante.

Em um equilíbrio de Nash, cada jogador faz o melhor para si, e ninguém tem incentivo a sair dessa situação. Isso caiu como uma luva para a análise econômica, que tenta entender como consumidores, empresas, organizações, políticos etc. se comportam, e que tipo de resultado pode emergir de sua interação.

Economistas incorporaram a Teoria dos Jogos a suas análises e a aperfeiçoaram. Aqui o foco é na lógica e no comportamento dos indivíduos. Se havia uma possível inspiração vinda da física, ela foi ficando para trás. Tornou-se possível analisar situações bem mais gerais – o equilíbrio do modelo de oferta e demanda pode ser visto como um caso especial de equilíbrio de Nash. Nesse mundo mais geral, não há necessariamente um único equilíbrio, estável e eficiente.

Um exemplo relacionado à área de desenvolvimento econômico ajuda a ilustrar o ponto. Pense em uma empresa de automóveis, que está considerando se instalar em determinado país. Mas ela só entra se houver fornecedores de peças. Fábricas de autopeças estão dispostas a entrar nesse mercado, porém apenas se houver demanda para seu produto (que viria da fábrica de autos).

Aqui há múltiplos equilíbrios. Em um deles, nem a montadora nem os produtores de peças se instalam. Nesse caso, como a montadora não entra no mercado, os fornecedores preferem ficar de fora. E como os fornecedores não entram, a fábrica de autos decide não se instalar. Cada jogador está fazendo o melhor para si, e ninguém tem incentivo a desviar – ou seja, temos um equilíbrio de Nash.

Outro equilíbrio ocorre quando ambas se instalam. Com a montadora entrando, fabricantes de autopeças têm incentivo a se instalar; nessa situação, a montadora também tem garantia de que disporá de insumos para produzir, o que lhe dá condições para entrar no mercado.

Note que, nessa estrutura teórica, o resultado pode ser ineficiente – como no caso em que tanto a montadora como os fornecedores ficam de fora do mercado. Há ainda espaço para a ação do governo, conduzindo a economia para o equilíbrio eficiente (em que montadora e fornecedores se instalam).

Este é apenas um exemplo de argumento teórico. Na verdade, trata-se de uma aplicação de Teoria dos Jogos publicada em 1989! Há diversas contribuições teóricas e aplicadas com equilíbrios que não são únicos, estáveis ou eficientes. Em outras palavras, a crítica à noção de equilíbrio em economia, que mencionamos anteriormente, não faz mais sentido nos dias de hoje.

2.     A REVOLUÇÃO EMPÍRICA

Uma crítica que ouvimos recorrentemente é que a economia é uma disciplina eminentemente teórica, sem muita preocupação com o mundo real. O artigo de John Rapley, que citamos no início deste texto, chama atenção para uma passagem atribuída a Wassily Leontief, um dos mais importantes economistas do século 20, ganhador do prêmio Nobel de 1973. Leontief ressalta os avanços da Economia em produzir modelos matemáticos teóricos, porém com pouca aplicação para problemas reais. Chama atenção para a necessidade de avançar mais rapidamente no front empírico, isto é, economistas deveriam prestar mais atenção aos dados.

A crítica de Leontief foi feita em seu discurso como presidente da American Economic Association, principal entidade de economistas dos Estados Unidos, em 1970. Naquela época essa crítica fazia bastante sentido. Hoje não mais.

Principalmente a partir da década de 1980, assistimos a uma explosão de artigos empíricos produzidos pela profissão. Daniel Hamermesh documenta que, em 1983, cerca de 58% dos artigos publicados nos principais periódicos da profissão eram puramente teóricos, enquanto que 37% eram empíricos. Em 2013, apenas 19% são teoria pura, enquanto que 64% são empíricos.

Avanços computacionais e nos métodos empíricos certamente contribuíram para essa mudança. Além, é claro, de um acesso cada vez maior a diferentes bases de dados. Atualmente, em boa parte dos artigos empíricos, pesquisadores fazem a própria coleta de dados.

Proporcionalmente, a profissão tornou-se menos teórica nas últimas décadas. E cada vez mais se debruça sobre assuntos bem aplicados. Uma rápida inspeção na última edição do American Economic Review – uma das principais publicações acadêmicas da área – revela artigos sobre infraestrutura e desenvolvimento na Índia colonial, seguro-desemprego na Suécia, abolição da servidão na Rússia, inovação e patentes, ruptura familiar e saúde dos filhos, para citar alguns.

 última edição de 2017 do American Economic Journal:Microeconomics contém três artigos empíricos sobre o Brasil.

Hoje, nas revistas top da profissão, podemos encontrar com certa frequência artigos sem um modelo matemático formal, e com algumas poucas equações apenas para descrever a relação entre variáveis que está sendo estimada.

A economia ainda tem muito a avançar, e as críticas são importantes para esse processo. Mas para isso precisamos de críticas de qualidade, sobre o atual estado da disciplina, e não sobre uma caricatura que se parece mais com a economia nos anos 1970.

Publicado originalmente na Coluna do Por Quê? na Folha

 

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