Por que a “classe média sofre”?

Por em 16 de abril de 2018 , atualizado em 20 de julho de 2018

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Pesquisa liderada pela professora Marta Arretche, da USP, sugere que a  atual “reação conservadora” teria sido causada pela melhora na distribuição de renda.

Difícil saber exatamente o que significa “reação conservadora”. Mas podemos discutir as mudanças na distribuição de renda no Brasil. Há dois fatos que resumem bem o que ocorreu nos últimos 20 anos, ainda que aparentemente contraditórios.

O primeiro fato é que condições no mercado de trabalho e programas de transferência de renda melhoraram muito as condições de vida dos mais pobres. Este é um movimento estrutural, em grande parte devido ao longo processo de universalização da educação básica e ancorado na preferência do eleitor brasileiro por programas como o Bolsa Família.

O segundo fato é que os muito ricos se deram bem, obrigado. Os ativos brasileiros se valorizaram, os salários da elite do setor público, outrora apenas altos, tornaram-se estratosféricos e por quase uma década a política econômica intencionalmente canalizou recursos da classe trabalhadora para os Joesleys e os Eikes.

Segundo a narrativa da professora Arretche, os ganhos dos mais pobres teriam incomodado os menos pobres, que agora têm de arcar, por exemplo, com direitos trabalhistas para suas empregadas domésticas. Daí, a origem daquilo que eu chamo “saco cheio da classe média”, mas que a professora Arretche, muito mais educadamente, chama de “reação conservadora”.

É curioso, entretanto, que a pesquisadora aparentemente tenha ignorado a possibilidade de que a “reação conservadora” seja uma resposta também ao segundo fato: muito ricos se deram muito bem.

Para a classe média, é perturbador viver em um país em que governos ditos de esquerda se recusam a taxar mais os grandes salários, distribuem salários imoralmente altos para uma pequena elite do serviço público e transformam os bancos estatais em máquinas para transferir renda para bilionários. E olha que nem falamos a Petrobras sendo saqueada…

Mas mais perturbador ainda é ouvir que nosso mal-estar não foi causado pelas malas de dinheiro do Geddel, as propinas do Joesley ou a arrogância de quem se quer acima da lei, mas, sim, porque queremos que a empregada doméstica ande de ônibus e não de avião.

 

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