Por que não existe mágica em Economia?

Por em 24 de agosto de 2017

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Solução fácil para problema difícil? Isso é coisa que não existe em economia. São vários os casos em que canetadas e “vontades” não bastam. Uma grande lição nesse sentido foi dada pela imensa crise financeira na qual o mundo se afundou faz alguns anos —e de onde, só agora, começa a emergir.

A coisa começou no mercado imobiliário dos Estados Unidos. Um monte de gente sem renda e sem emprego recebeu crédito bancário para comprar imóveis.

É isso mesmo. Parece maluquice? Mas foi assim.

Aí o juro começou a subir —e a inadimplência idem. Os bancos americanos tinham como garantia as próprias casas que financiaram, cujos preços só aumentavam. Só que, em dado momento, boa parte dessas casas foram sendo tomadas de volta pelos bancos e postas à venda. Esses preços começaram a cair, a cair, a cair… E, bom, o resto da história você já sabe.

POR QUE DEIXARAM O CRÉDITO CORRER SOLTO?

Raghuran Rajan, ex-presidente do Banco Central da Índia e amigo do PQ?, sugere história plausível e bem interessante: os governos dos Estados Unidos entenderam que a estagnação da renda do americano médio era um problema de possíveis desdobramentos eleitorais (santa presciência, Batman!). E, de fato, a renda do americano médio não cresce quase nada faz uns 30 anos (macacos me mordam, Robin!).

“Bom, que tal melhorar a vida desse pessoal? Vamos deixar que realizem o sonho da casa própria! Ah, sim, é mesmo, eles não têm dinheiro… Mas é só darmos crédito, ué! É fácil! Depois a gente vê o que faz…”

“Fácil”? Sim, mas também estúpido.

POR QUE FUGIRAM DO PROBLEMA PRINCIPAL?

A gente responde: é muito difícil consertar as coisas de verdade.

A causa do problema da estagnação da renda média nos Estados Unidos é o mau funcionamento do sistema de educação do país. Foram os trabalhadores com baixo nível educacional que ficaram para trás, não os outros.

É realmente uma tarefa complicada tornar a escola mais eficiente. O processo todo toma um tempo danado. Passa por mudar a governança do sistema de educação, enfrentar corporativismos e lobbies, realocar recursos, treinar gente, engajar os pais dos alunos de modo sistemático…

O que é bem mais “eficiente” no curto prazo? Dar umas casas (e várias dívidas) para esse pessoal sem renda. Assim, eles ficam felizes por realizar o tal “sonho americano”, numa espécie moderna de “pão e circo”.

No médio prazo, é claro, o desastre é certo.

O QUE TRUMP TEM A VER COM ISSO?

Tática parecida é usada pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele só muda o subterfúgio: em vez de usar o do crédito a rodo, prefere falar do inimigo externo, do chinês malaco, do mexicano que aceita ganhar uma pindaíba para fazer a mesma coisa, etc, etc, etc.

Solução “fácil” de Trump: fazer uns muros, reais e tarifários, para trazer de volta a prosperidade! Só que, desse jeito, a prosperidade não voltará.

E no Brasil, muita ‘mágica’ sendo feita?

Por estas terras, muito do que se ouve tem natureza similar.

Esses dias, por exemplo, conhecemos o nosso triste desempenho no exame internacional PISA. Esse teste compara mundialmente a aprendizagem de alunos da segunda parte do ensino fundamental. E fomos péssimos: em matemática, para se ter ideia, alcançamos a 65ª posição num ranking formado por 70 países.

“E a culpa é de quem? Ora, da falta de recursos para educação! Da PEC 55! Da austeridade!”

Solução “óbvia”: gastar mais com educação. Uns 10% do PIB, pelo menos? Que tal?

Aprovar mais gastos no Orçamento é fácil. Mexer com o esquema de incentivos dentro da educação? Ninguém ousa mencionar. Falar em reforma da estrutura de governança? É quase pecado. Demitir professores desinteressados e despreparados? “Nada disso! Que absurdo…” E aumentar o salário dos professores bons e dedicados? “O quê? Não! Querem é privatizar a educação!”

E, assim, seguimos ladeira abaixo.

Soluções fáceis para problemas difíceis? É coisa que não existe. Xô, assombração!

*Texto originalmente publicado na nossa Coluna da Folha, em 13 de dezembro de 2016.

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