Por que o dinheiro é uma baita invenção?

Por em 26 de janeiro de 2016 , atualizado em 24 de julho de 2016

O dinheiro é uma das principais invenções da humanidade. Pense só como o mundo seria sem ele… As pessoas teriam que recorrer ao escambo, isto é, teriam de fazer trocas diretas de mercadorias por mercadorias – o que traria um problema enorme.

Suponha que você é um padeiro (e seja muito bom no seu ofício). Só que você precisa de outras coisas na sua vida além de pães. Se, por exemplo, quiser comprar sapatos, precisará encontrar não só um sapateiro, mas, sim, um sapateiro interessado em receber pães em troca. É o que os economistas chamam de dupla coincidência de desejos.

Com a existência do dinheiro isso não é necessário. Você vende seus pães por dinheiro e, com esse dinheiro, vai lá e comprar sapatos. Simples assim.

As dificuldades envolvidas na economia de escambo tornam as trocas muito custosas.

Num mundo sem dinheiro, não seria mais vantajoso para você produzir seu próprio sapato, em vez de gastar tempo em busca de um sapateiro disposto a receber pães em troca? Isso seria ruim para a economia. Como você é bom no seu ofício de padeiro, o melhor seria você gastar seu tempo de trabalho apenas produzindo pães, não fabricando sapatos.

O sapateiro também tem um problema semelhante nesse cenário. Além de achar alguém que queira sapatos, precisaria de quem também venda roupas, por exemplo. Essa tarefa não é nada fácil e ele, no fim das contas, o sapateiro poderia acabar gastar tempo demais na produção de roupas – e não fazendo a sua especialidade: sapatos.

A existência do dinheiro destrava esse mecanismo. Você produz pães e recebe dinheiro, que pode ser gasto com a compra de sapatos. O sapateiro pega então esse dinheiro e compra roupas. E assim por diante. Com isso as pessoas podem se concentrar naquilo que fazem de melhor, o que acaba aumentando a produtividade da economia como um todo.

Outra vantagem: a chamada divisibilidade da moeda. Mas o que é isso?

Suponha que cada pão custe 3 reais e que cada par de sapatos custe 100 reais. Ou seja, para comprar um par de sapatos, o padeiro precisa vender 34 pães. Isso lhe daria uma receita de 102 reais (34 x R$ 3). Para comprar um par de sapatos, portanto, o padeiro paga os 100 reais exigidos pelo sapateiro e ainda lhe sobram 2 reais para comprar alguma outra coisa.

Imagine agora como seria essa transação numa economia de escambo: você não só precisaria encontrar um sapateiro disposto a comprar pães. Teria ainda de conhecer um sapateiro disposto a receber 34 pães! E como fariam com o troco? No lugar de 34 pães por um par de sapatos, você daria 33 pães inteiros… e mais um terço de pão?

A moeda, por ser bem mais divisível que a maior parte das mercadorias, resolve esse problema. Dificilmente alguém aceitaria dois pares e meio de sapato ou estaria disposto a receber um terço de pão em uma transação.

Por outro lado, usualmente expressamos valores monetários até a segunda casa decimal (o centavo) e, em alguns casos, até a terceira casa, como nos preços de combustíveis.

Para que essa propriedade de divisibilidade funcione bem é preciso que os estabelecimentos comerciais estejam dispostos a dar troco se os fregueses não possuírem o valor exato da compra em dinheiro. Caso contrário, as pessoas teriam de carregar quantidades grandes de dinheiro em denominações menores – por exemplo, moedinhas de centavos.

Mas é impressionante como esse negócio não funciona muito bem no Brasil…

Frequentemente comerciantes pedem que fregueses facilitem o troco; ou recorrem a aproximações nos centavos; ou, ainda, dão mercadoria (como balas) como troco.

Nos cinco anos que morei nos Estados Unidos não presenciei nada semelhante. Talvez isso seja explicado pelo nosso histórico de inflação alta e/ou da taxa de juros elevada. Podemos supor os estabelecimentos comerciais segurem pouco dinheiro vivo (depositam no banco assim que possível a grana que entra) e que isso leve a tais gambiarras.

Claro, com a difusão dos cartões de crédito e débito, esse problema fica cada vez menos importante. De qualquer forma, ainda há locais em que o comércio se dá quase que exclusivamente com dinheiro, como nas feiras livres – embora já observemos, em muitas delas, o crescimento do uso dos meios eletrônicos de pagamento.

Uma vez, conversando com um feirante, aprendi um fato interessante: a divisibilidade tem preço. Ele me disse que há uma pessoa que presta o seguinte serviço na feira: para cada 100 reais em notas grandes, a pessoa paga 96 reais em cédulas de denominação mais baixa e moedas. Achei meio salgado. Mas é, provavelmente, menos custoso na prática do que perder tempo indo ao banco para tentar trocar dinheiro. Essa história reforça como a propriedade da moeda é de fato valiosa para o nosso dia a dia.


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