Por que tiriricas sempre são eleitos?

Por em 11 de outubro de 2018 , atualizado em 16 de outubro de 2018

Nas eleições, certas coisas são previsíveis, como a ampla votação de Tiririca para a Câmara dos Deputados. Dessa vez não foi diferente. Apesar de não apresentar algo tão impressionante quanto em outros pleitos, conseguiu números de votos para, com folga, manter sua cadeira no Congresso.

A campanha é sempre a mesma. Piadas, gracinhas, quase nada de propostas. Muita gente culpa o eleitor por isso, em razão de não ter a consciência e comprometimento necessários para eleger candidatos com discursos baseados em propostas reais. Mas é o nosso sistema eleitoral que facilita a vida de figuras como Tiririca. Ele não é a única “celebridade” a ter sucesso na última eleição. Na segunda-feira (8) a Folha noticiou: “São Paulo elege palhaço, general, príncipe e ator pornô”.

 

 

Mas como as regras eleitorais ajudam Tiririca (e outras pessoas conhecidas fora da política) a se ele eleger?

No nosso sistema, o que conta são os votos conseguidos no nível do estado. Suponha, por exemplo, um candidato que possua uma rejeição elevadíssima, mas uma pequena parcela fiel de eleitores. Ele é conhecido, e pega essas pequenas fatias de voto em todos os cantos do estado. Quando agregamos, a votação torna-se expressiva.

Outra característica do sistema eleitoral impulsiona a entrada desses candidatos: eles são “puxadores” de voto, na medida em que sua eleição favorece a de outros candidatos da coligação. Partidos, dessa forma, são incentivados a buscar figuras conhecidas como candidatos.

Compare essa situação com um sistema de voto distrital. Nele, o estado é dividido em distritos que elegem um ou dois deputados. Contam apenas os votos no distrito. Isso implica um candidato com 1% ou 2% dos votos em todos os cantos do estado não conseguir se eleger em nenhum lugar. Não funcionaria a estratégia de agregar poucos votos, mas em todo o estado.

Como, no sistema distrital, há poucas vagas por distrito, teremos também um número relativamente restrito de candidatos se lançando. Suas agendas passam a se voltar mais para os problemas locais. O eleitor, assim, consegue se lembrar de quem votou, além de poder cobrar mais facilmente seus representantes.

Compare com o sistema atual. O eleitor tem à sua disposição uma quantidade grande de candidatos que, muitas vezes, guardam pouca relação com sua realidade. O incentivo a adquirir informação sobre os candidatos é muito baixo. Não é à toa que as pessoas votam mal –e muitas vezes nem se lembram de seus candidatos escolhidos na eleição passada.

O voto distrital tem, entretanto, um potencial problema: como favorece agendas muito locais, acaba dificultando a entrada de candidatos cujas plataformas envolvam questões nacionais – como a defesa dos direitos humanos, por exemplo. Mas parece-nos que o Senado, em que a eleição é majoritária no nível do estado, já seria capaz de captar essas agendas mais gerais.

É muito fácil culpar o eleitor toda vez que o Tiririca se elege. Mas a verdade é que o sistema eleitoral favorece a entrada de figuras desse tipo.

Publicado originalmente na Coluna do Por Quê? na Folha.com

 

 

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