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Precisamos falar sobre pedágio urbano – por quê?

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19/09/2016-14:49 - Atualizado 22/09/2016 14:46

Dizer que “o trânsito é caótico nas grandes cidades” virou clichê. A quantidade de carros parece aumentar no mesmo ritmo da dificuldade para se mover de um canto a outro. E, embora todo candidato à prefeito use e abuse desse assunto, são raros aqueles com coragem de arriscar capital eleitoral numa proposta impopular, mas óbvia do ponto de vista econômico: por que não cobrar pedágio se já não cabe mais carro na rua?

Sim, franzimos a testa, com razão, para qualquer nova taxa – o custo de vida já é bem alto no Brasil. Mas, diante de algumas regrinhas básicas da economia, fica difícil seguir na contramão – e nos perdoem por esse trocadilho, foi inevitável.

De acordo com a teoria econômica, em geral, da escassez surge um ou outro caminho: ou filas (A) são formadas e quem chegar primeiro leva; ou os preços (B) sobem e feliz de quem tiver grana.

Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado ao trânsito nas grandes cidades.

Enquanto da escassez de espaço livre nas vias surgem filas (A) quilométricas de motoristas disputando quem chega primeiro; o preço (B) para um motorista usar a via está congelado em zero.

Não é o jeito mais eficiente de distribuir um bem escasso do ponto de vista econômico.

Rodízio é solução?

Prefeituras do Brasil inteiro têm optado por resolver esse problema com a política dos rodízios – a cada dia da semana, veículos com determinadas placas não podem transitar.

A regra adotada, em geral: a depender da placa, carros não podem circular em determinadas faixas de horário da manhã e da tarde/noite, são os chamados horários de pico ou de rush. Na segunda-feira, vale para os veículos cuja placa termina em 1 ou 2; na terça, finais 3 e 4; e assim por diante, valendo até sexta-feira.

Na teoria, o rodízio levaria todos os motoristas a não saírem de carro pelo menos um dia por semana. Mas a prática pode ser outra: pessoas com renda suficiente simplesmente compram outro carro, com placa diferente, para escapar da proibição.

Essa possibilidade se mostra real ao avaliarmos a situação da Cidade do México, umas das mais dramáticas do mundo no quesito trânsito.

Por lá, um sistema de rodízio ainda mais rigoroso foi adotado, com mais critérios de proibição. O número de novos carros registrados aumentou consideravelmente. Já o número de passageiros de ônibus e metro não cresceu…

Uma coisa não pode ser descartada numa política pública: o comportamento das pessoas e as mudanças causadas por incentivos. E, nesse caso, como mostram os dados, a reação do cidadão se opõe a esperada pela decisão dos prefeitos.

Aos radicais de plantão, um alerta: evidentemente, a extinção sumária do rodízio pioraria a situação. O ponto aqui é: o rodízio, há anos adotado como solução, talvez não seja a medida mais eficiente possível para diminuir o trânsito.

E é aí que entra a necessidade do pedágio urbano.

Por que o pedágio urbano é mais eficiente que o rodízio?

A cobrança de um preço para transitar de carro por vias mais movimentadas em determinados horários teria poder de regular a chamada quantidade ótima de trânsito. Elevaria a velocidade média e, de quebra, geraria receitas para o estado – que tal uma grana extra para investir em alternativas de transporte público de larga escala?

Essa medida, fora atacar diretamente a escassez de espaço nas ruas trafegáveis, atua em outra frente: a da poluição gerada pela queima de combustíveis.

Quando um só motorista liga o seu veículo e sai por aí, prejudica a sociedade toda ao liberar fumaça aos quatro ventos. Não faz sentido inibir esse efeito negativo?

Políticas de transito são desenhadas hoje olhando muito para o curto prazo. Por vezes, até fazem o volume de carros diminuir. Mas só por algum tempo. Curto prazo não pode ser o objetivo principal de um gestor.

Dado o dano maciço causado pelos carros, faz sentido um prefeito desestimular seu uso. Claro, o ideal é que as pessoas também mudem de mentalidade e escolham outros tipos de transportes. Mas para que essa escolha exista, são necessárias alternativas disponíveis em larga escala, o que não há hoje: não há dúvidas de que falta corredor de ônibus e metrô.

Nesse sentido, e retomando outro clichê, “precisamos falar sobre” o pedágio urbano.

Por mais que faça muito eleitor torcer o nariz, o que é de se entender, cabe ao político ser realista e explicar. E essa é uma política com potencial para diminuir pesadamente os congestionamentos das grandes cidades. De quebra, tende a ser boa fonte de arrecadação para financiar obras de transporte público que atendam a grande número de pessoas.

Por Carolina Schimitt, Guilherme Zaru, Karina Fugita, Luis Bento e Matheus Monaci, alunos do Insper