Quais as vantagens econômicas de Uber, Cabify e derivados?

Por em 27 de abril de 2017 , atualizado em 31 de outubro de 2017

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A chegada da Uber, do Cabify e de outros aplicativos de transporte vem revolucionando a forma como as pessoas se locomovem em centros urbanos.

Em particular, eles introduziram competição em um mercado tradicionalmente bastante regulado e dominado por táxis, que contam com concessões de governos locais. Uber e afins permitem que motoristas consigam entrar nesse mercado, mesmo sem contar com a licença de uma prefeitura, por exemplo.

Isso representa um ganho para o consumidor, já que a concorrência proporciona preços mais baixos e maior disponibilidade de motoristas para o serviço. Mas há outras repercussões importantes, pois a nova tecnologia permite um uso mais eficiente dos recursos da sociedade.

Explico.

Quem tem um veículo pessoal sabe: ele fica a maior parte do tempo parado, ocioso. Grande parte dos indivíduos usa o carro para se locomover entre casa e trabalho (ou escola), o que corresponde a uma fração pequena de cada dia. No restante do tempo o carro permanece estacionado.

Há uma série de custos fixos (ou seja, que independem do número de quilômetros rodados) associados a um veículo —seguro, IPVA, juros do financiamento etc. Quanto mais o carro roda, mais os custos fixos podem ser “amortecidos”. Mas se ele fica parado a maior parte do tempo, esses custos serão substanciais por quilômetro.

Apesar de tudo isso, como o táxi é caro e nem sempre disponível, muita gente opta por ter o próprio veículo. A entrada de concorrentes do táxi muda totalmente esse panorama.

Deixe-me dar um exemplo ilustrativo. Maria é uma executiva que todo dia entra no trabalho às 9h e sai às 19h, e usa seu próprio carro para se locomover. João trabalha em casa, mas diariamente vai à academia (também em seu carro) à tarde. Sai às 14h e retorna às 17h. Note que os veículos de ambos ficam a maior parte do tempo parados. Ainda assim, eles preferem usar seus automóveis, pois acham o táxi caro e nem sempre encontram taxistas quando necessitam.

Não seria ótimo se João e Maria dividissem o mesmo carro? Claro que isso é muito complicado. Eles não se conhecem e não vivem exatamente na mesma vizinhança. Maria teria de entregar o carro para João, que depois o devolveria.

Porém, se houver uma alternativa mais barata e disponível de locomoção, eles podem de fato dividir o mesmo carro —o de um motorista de Uber, por exemplo.

A implicação disso é que a necessidade de ter carro diminui. Famílias passam a ter menos veículos próprios. Algumas pessoas simplesmente desistem de ter carro. E indivíduos que dirigem para Uber e afins rodam mais, permitindo um maior “amortecimento” dos custos fixos associados ao veículo.

Há outro efeito importante. Carros parados precisam ser “guardados”. Ou seja, a ineficiência associada à ociosidade requer o uso de outro recurso escasso: espaço físico – garagens, por exemplo.

Com os indivíduos utilizando menos veículos próprios, há menor demanda por esse espaço. No curto prazo, o preço do estacionamento diminui; no longo prazo, o espaço pode ser liberado para usos alternativos.

Já temos indícios de que isso está ocorrendo na cidade de São Paulo. A demanda por estacionamentos está em queda livre, assim como os preços cobrados pelo uso de espaço.

Há ainda um ganho adicional: com o custo mais baixo e a maior disponibilidade de motoristas, as pessoas estão deixando de usar seus carros quando vão para a balada. Dependendo do caso, a corrida sai mais barata que o preço do estacionamento. Isso significa menos pessoas dirigindo bêbadas na volta para casa, o que reduz o número de acidentes. Já há evidências desse efeito para a cidade de Nova York.

A mudança traz impactos negativos para setores e indivíduos específicos. Taxistas perdem com a concorrência, e há ainda a diminuição de oportunidades de emprego para manobristas. Mas esse efeito é certamente pequeno, pois não estamos falando de uma fração significativa dos postos de trabalho da economia.

Por outro lado, Uber e outros aplicativos oferecem oportunidades de emprego para diversas pessoas. Desempregados, por exemplo, podem ingressar temporariamente nessa ocupação e diminuir os custos associados à falta de trabalho.

Na verdade, um movimento semelhante pode ser visto no mercado de imóveis. Casas e apartamentos também ficam ociosos em determinadas situações. Aplicativos como o Airbnb permitem, por exemplo, que uma família que vá viajar alugue seu imóvel por um período curto. Ou que um quarto vazio em um apartamento possa ser alugado a outra pessoa. Tudo isso reduz a ociosidade e garante o uso mais eficaz dos recursos.

Será que, no futuro próximo, veremos algo semelhante para coisas como ferramentas e eletrodomésticos?

Texto publicado originalmente em nossa coluna na Folha de S.Paulo.

 

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