Quem são os ‘Chicago Oldies’?

Por em 13 de dezembro de 2018 , atualizado em 11 de dezembro de 2018

A equipe econômica do governo Bolsonaro vai se formando. Muito se tem falado sobre o suposto viés liberal do time, em função da presença de economistas formados na Universidade de Chicago. A imprensa inclusive criou para eles a alcunha “Chicago Oldies”, uma referência aos “Chicago Boys” do Chile de Pinochet. Diferentemente dos chilenos, nossos profissionais concluíram seu doutorado há algum tempo – daí o nome “oldies”. Por exemplo, o superministro Paulo Guedes tornou-se doutor em 1978 pela instituição.

Matérias recentes chegaram a relacionar “teorias liberais” a professores da Universidade de Chicago. A ligação entre a escola e o suposto viés liberal, porém, é mais tênue do que parece.

Essa associação provavelmente tem muito a ver com Milton Friedman (1912-2007), que passou toda sua vida profissional como professor de Chicago. Ele foi um dos economistas mais influentes do século 20, tendo recebido o prêmio Nobel de 1976. Suas contribuições para a profissão são enormes, principalmente em teoria monetária, o papel das expectativas e o comportamento do consumo e da poupança.

Friedman era também forte defensor do livre mercado e cético com relação à atuação do governo na economia. Ao contrário da grande maioria dos economistas, esforçava-se para levar a discussão acadêmica para o público geral –e fazia isso como ninguém. Seu livro Free to Choose e o programa televisivo homônimo influenciaram pessoas ao longo de gerações. Você pode encontrar diversos vídeos de Friedman no YouTube, como este, que se tornou famoso, sobre a produção do lápis.

Mas Chicago não é só Milton Friedman. A Universidade tem um dos melhores departamentos de economia do mundo, com diversos acadêmicos de excelência em seus quadros. Não há nenhum departamento no mundo com tantos vencedores do prêmio Nobel de economia, nas mais diversas áreas da disciplina. Exemplos recentes incluem Lars Hansen (por suas contribuições para economia financeira e métodos quantitativos) e Roger Myerson (por suas contribuições sobre desenho de incentivos em problemas de informação assimétrica). James Heckman, que recebeu o Nobel de 2000, tem influenciado a discussão sobre economia da educação ao ressaltar a importância dos investimentos na primeira infância.

A estrutura no doutorado de Chicago é bastante padrão, sendo muito semelhante à de outros departamentos de excelência. É voltada para a formação de pesquisadores de alto nível, e não de ideólogos do livre mercado. Não há cursos de liberalismo ou algo semelhante.

Essa estrutura padrão envolve cursos de teoria econômica e métodos quantitativos no primeiro ano, contendo as ferramentas básicas do economista acadêmico. No segundo ano, o aluno deve escolher campos de especialização, em que é exposto à pesquisa de fronteira nessas áreas. Nos anos restantes escreve sua tese, a qual se espera que contenha contribuições suficientemente importantes para a profissão a ponto de gerar artigos acadêmicos de primeira linha.

A referência a “teorias liberais”, utilizada por aqui para se referir a contribuições de professores de Chicago, tampouco faz sentido. Teorias são um conjunto de hipóteses, cuja interação leva a resultados analíticos. A discussão relevante deve ser com relação à razoabilidade das hipóteses.

Um dos principais resultados da profissão, que norteia boa parte da discussão de política pública e intervenção do governo, é o Primeiro Teorema do Bem Estar. Ele nos diz que, sob certas hipóteses, o livre mercado leva a economia ao uso mais eficiente dos recursos. O governo não consegue fazer nada para melhorar a economia nessa dimensão (e, em geral, só atrapalha).

Essas são hipóteses bastante fortes. Incluem, entre outras, a presença de concorrência perfeita (isto é, não há nenhum produtor ou consumidor muito grande, capaz de afetar preços de mercado) e ausência de externalidades (isto é, a decisão de um indivíduo do quanto consumir ou produzir não afeta outros que não têm nada a ver com isso). Violações dessas hipóteses são as chamadas “falhas de mercado”, e abrem espaço para a intervenção estatal com vistas a elevar eficiência econômica.

Por exemplo, em situações em que a produção envolve poluição ou agressão ao meio ambiente, temos uma falha de mercado por conta da externalidade negativa; quando apenas uma ou poucas empresas dominam um mercado, sendo capazes de influenciar o preço, a hipótese de concorrência perfeita é violada. Nesses casos, a ação do governo pode elevar a eficiência econômica.

Lógico, a intervenção tem custos e nem sempre é tão cirúrgica quanto a teoria prevê –nesse caso, ocorrem as chamadas “falhas de governo”. A discussão sobre os méritos da ação do Estado deve se dar então sobre as hipóteses –a relevância das falhas de mercado e de governo em cada situação– e não sobre a teoria em si. Um economista pró-mercado provavelmente acredita que falhas de governo são tão problemáticas que é melhor conviver com eventuais ineficiências associadas a falhas de mercado.

Esse instrumental é ensinado não apenas em Chicago, mas em todas as boas escolas de economia no mundo –inclusive nos melhores programas de pós-graduação brasileiros. Não há nada específico na formação do economista de Chicago que o levaria a se tornar mais ou menos propenso a apoiar a ação do governo na economia.

Se houver alguma propensão média de egressos de Chicago a serem mais pró-mercado, trata-se provavelmente de uma mera correlação. Como a estrutura do doutorado é semelhante à de outras boas escolas, não há motivo para esperar que o curso em si faça com que as pessoas se tornem mais ou menos liberais.

COLUNA DO POR QUÊ? NA FOLHA DE S.PAULO

 

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