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Seu mérito é menos seu do que você pensa

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15/05/2018-15:50 - Atualizado 15/05/2018 15:54

Seu mérito é menos seu do que você pensa. Seguramente esforço importa, mas é apenas um dos diversos vetores —  ou, mais tecnicamente, não se relaciona “biunivocamente”, de modo direto, com seu sucesso.

Comece com um exemplo simples: o “mesmo” cara, com os mesmos x anos de educação e a mesma medida y de determinação e gana, ganha em média três vezes mais nos Estados Unidos que no Brasil.

Qual o mérito de ter uma renda três vezes maior, nesse caso? Usamos aqui “mérito” no sentido de esforço, de ter batalhado para subir na vida.

Pergunte para um morador dos Estados Unidos se ele aceitaria que a gente, dando uma de deus,  o mandasse renascer no Burundi, com toda a sua força de vontade e ética do trabalho.

O mesmo se aplica a quem nasceu num microcosmo diferenciado dentro do Brasil. Qual a probabilidade de um cidadão que nasce numa favela de uma capital do nordeste se tornar um engenheiro bem-sucedido? Ou advogado? Ou arquiteto? Baixíssima. Como fica o mérito aqui?

Não, não se conserta esse problema com esforço e vontade de vencer. A pesquisa acadêmica de James Heckman, prêmio Nobel de economia em 2000, mostra quão fortes são as amarras do microcosmo socioeconômico para o desenvolvimento futuro das pessoas. Aos cinco anos, a criança já está semicondenada pelas suas condições iniciais.

Sim, há sempre o exemplo do cara que saiu da pobreza e venceu. Como Machado de Assis, que aprendeu francês com o padeiro para quem trabalhava. São casos mais que raríssimos e, portanto, não servem para informar a política pública. São as tais andorinhas que não fazem o verão.

O cara que nasceu na terra do tio Sam, ou você (e eu, claro) que nasceu de pais alfabetizados e dedicados, são enormes free-riders de um entorno institucional superpropício ao sucesso. Não fizemos nada para merecer isso. Qual então o tamanho do nosso mérito individual? Pare para pensar: é um jogo de cartas marcadas!

Isso para não entrar num outro debate, ainda mais polêmico. Veja, você que tem maior capacidade de postergar “consumo” para investir/estudar hoje, ou que tem um QI que facilita tremendamente seu aprendizado, ou que nasceu alto e bonito e com facilidade de expressão oral. O que é “mérito” de fato seu nisso tudo, nessas variáveis que compõem o seu sucesso? O poder do seu córtex pré-frontal é eminentemente exógeno, não?

Sim, o Neymar treinou e se dedicou e levou a coisa a sério. O Zico ficava treinando bater falta depois do fim do treino. Tudo verdade. Mas quantos outros não fizeram ainda maior esforço e terminaram na várzea? Qual o mérito do Neymar nisso?

E se Neymar tivesse nascido em 1935, quando os salários dos jogadores eram muito menores? Neymar é um free-rider da qualidade institucional do mundo moderno, não fez nada para merecê-la. Graças à televisão, ele aparece em todos os cantos do mundo quando joga e assim seu valor de mercado atinge cifras tremendas. O que ele fez mesmo para nascer num mundo com bilhões de espectadores? Como dizer que o salário dele é eminentemente mérito dele?

Nada disso significa que devamos menosprezar a importância do mérito em sociedade, pois o oposto da meritocracia é a corrupção, definida num sentido mais amplo —  o mundo do “sobe mais quem enviesa as regras” ou quem as burla em beneficio próprio.

Quem tem que passar no concurso é quem tirou a maior nota, claro. Mas tente não pôr 100% do seu sucesso na caixinha do esforço pessoal. Você,  eu, o Neymar e o tal americano somos tremendos free-riders. Que essa consciência possa ajudar a despertar um pouco de compaixão e compreensão,  mais boa vontade com programas de transferência de renda e menos miopia em relação às origens e causas de muitas mazelas sociais.

 

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