Um retrospecto de 2018

Por em 20 de dezembro de 2018 , atualizado em 14 de dezembro de 2018

Se um marciano disser a um habitante qualquer deste planeta que a cada quatro anos temos um ano especial, diferente dos outros, nosso amigo do planeta Terra provavelmente pensará que o extraterrestre se refere aos anos bissextos, aqueles em que o mês de fevereiro tem 29 dias. Mas se o camarada terrestre for brasileiro, vai pensar que o alienígena se refere aos anos de Copa do Mundo e eleições presidenciais.

Estamos chegando ao fim de mais um desses anos especiais, inesquecíveis, o que para a equipe do Por Quê? é uma grande felicidade, não só porque estamos virando uma página desconfortável (perdemos da Bélgica!), mas também porque a tarefa de escrever a retrospectiva de 2018 é facilitada pela importância daqueles dois eventos.

Vamos deixar as considerações sobre a Copa do Mundo para outro momento e colocar as eleições no centro da nossa retrospectiva. Depois de quatro ciclos, o Partido dos Trabalhadores (PT) não elegeu o presidente. A alternativa tradicional, o PSDB – partido centrista que rivalizou com o PT nas últimas seis eleições presidenciais –, também foi rejeitado. Para a presidência, o Brasil elegeu um candidato que se apresenta como “de direita” e que até pouco tempo tinha pouca expressividade no cenário político; nos demais cargos, grande parte do establishment político também foi derrotado, e uma nova geração chega a Brasília.

Mas como chegamos a essa mudança tão radical?

Para responder a isso, precisamos quebrar as regras das retrospectivas anuais e voltar alguns meses a mais em nossa narrativa.

Em maio de 2017, uma ambiciosa agenda reformista navegava nas comissões do Poder Legislativo. Entre outras propostas, havia uma reforma da Previdência que revolucionaria nossas contas públicas, reduzindo a diferença entre os privilegiados e os mais pobres e economizando recursos para o governo gastar em educação, saúde ou outras prioridades. Não sabemos se haveria votos para aprovar a reforma, mas havia um clima de esperança de que nosso problema fiscal seria equacionado e o Brasil poderia voltar a crescer, livre da perspectiva de se defrontar com o dragão da inflação na próxima curva da estrada.

Entretanto, o programa de reformas colidiu com um iceberg: as infames gravações envolvendo o presidente Michel Temer, o senador Aécio Neves e o empresário Joesley Batista. Quando a classe política mais precisava de credibilidade para impor perdas ou sacrifícios a parcelas da população, ouvimos Aécio Neves explicar suas ligações esdrúxulas e Temer tecer encontros na surdina da noite com um bilionário dependente de benesses governamentais.

Mesmo durante essa derrocada, o establishment político continuava a respirar, assim como também respiram os condenados à morte à espera do cadafalso. Nós, do Por Quê?, e provavelmente muitos de nossos leitores, não vimos a morte anunciada. Hoje, porém, com o benefício da distância, percebemos que o enterro de grande parte desse establishment seria inevitável. Hoje percebemos que a mudança política era um destino traçado.  Enquanto a mudança não se concretizava, porém, o Brasil esperou ansioso, andando vagarosamente para trás.

Com a principal reforma econômica adiada, o investimento privado continuou de férias. Como investir se não sabíamos ainda que tipo de governo nos esperaria em 2019? Sem investimento, o desemprego apenas caiu de níveis altíssimos para níveis muito altos. Ao mesmo tempo, as estatísticas de violência, já estratosféricas, continuavam a subir.

Para piorar a situação, muitos estados e municípios que não estavam em crise fiscal ainda se esforçaram para apressar o dia em que não teriam mais dinheiro para pagar seus servidores. Aqueles que já estavam em crise fiscal parecem ter se empenhado para que a crise fosse ainda mais profunda no futuro (vide a recusa, pela Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, em privatizar a Cedae).

A tímida recuperação econômica engasgou em maio de 2018, quando os caminhoneiros paralisaram o Brasil para exigir que o resto do país pagasse pela manutenção do padrão de vida que alcançaram durante o boom econômico dos anos que se foram. Para nosso desânimo, mesmo com o país parado e estoques de medicamentos se esgotando em hospitais, poucos foram os políticos que se opuseram com firmeza aos baderneiros das estradas. Coragem é uma qualidade escassa em nossa classe política.

Esse é o retrato do Brasil em 2018: um país cujos políticos fracassaram. Por outro lado, e isso é importante, um país em pleno exercício da democracia: as eleições ocorreram sem intercorrências e, ao final, a população rejeitou governantes que não souberam, ou não quiseram, atendê-la.

Em retrospecto, 2018 é o fim de um ciclo. Não sabemos o que temos pela frente, mas torcemos para que aqueles que chegam agora ao poder tenham discernimento e coragem para fazer as reformas necessárias, ainda que impopulares, e mantenham o equilíbrio e o respeito ao sistema democrático em todas as instâncias.

É hora de dizer adeus ao passado e encarar o futuro com determinação. O Brasil deu aos eleitos um voto de confiança, e nosso dever agora é exigir que eles demonstrem que o merecem. Talvez não ganhemos a próxima Copa do Mundo, mas com informação e participação coletiva podemos superar diferenças e trabalhar juntos para melhorar o país.

COLUNA DO POR QUÊ? NA FOLHA DE S.PAULO

 

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